Nutrição em situações específicas



Nutrição em situações específicas

Perda de peso

É frequente que doentes com cancro aparentem magreza. Esta perda de peso pode ser encarada como um sinal ou pode ser um sintoma em fases mais avançadas do cancro.

A perda de peso pode acontecer por diversos motivos isolados ou combinados, tais como: 

Ingestão inadequada de alimentos

  • É natural que o impacto emocional, numa fase inicial da doença, faça com que perca o apetite. No entanto, é importante que faça um esforço para se alimentar corretamente, a alimentação é extremamente importante para se manter forte e tornar os tratamentos mais eficazes.
  • A quimioterapia e a radioterapia, por provocarem náuseas e vómitos, também favorecem a perda de peso.
  • Podem ocorrer alterações no olfato e paladar devido aos tratamentos com certos medicamentos.
  • Cancros da orofaringe, esófago, estômago ou intestino também propiciam grandes perdas de peso.
  • Quando existe necessidade de glossectomia (remoção da língua) total ou parcial ou mandibulectomia (remoção da mandíbula) a capacidade de deglutição fica geralmente debilitada propiciando perdas de peso. Por outro lado, a remoção total ou parcial do esófago (esofagectomia) ou do estômago (gastrectomia) fazem diminuir largamente a ingestão de alimentos.
  • A anorexia (redução ou falta de apetite) não é um fenómeno raro nos doentes oncológicos, acontece em cerca de 20% dos casos.

Digestão e absorção prejudicadas

  • É frequente que doentes com cancro tenham alguma diminuição da função intestinal, isto traduz-se em má absorção da água, nutrientes, vitaminas e sais minerais. Estas situações podem acontecer mesmo quando os tumores não são digestivos.
  • Alguns tratamentos mais agressivos podem provocar uma atrofia parcial das vilosidades da mucosa intestinal.
  • A ascite, que é a acumulação de líquidos ao nível abdominal no peritoneu, também perturba o correto funcionamento do intestino, prejudicando a absorção.
  • A radiação da radioterapia na zona abdominal ou na zona da pelve também pode causar enterite aguda. A enterite é uma inflamação da mucosa intestinal, particularmente do intestino delgado. No caso de ser um episódio agudo verifica-se o aparecimento súbito de diarreia, cólicas intestinais, timpanismo, que é uma distensão exagerada do abdómen, e febre. A enterite aguda pode gerar complicações futuras que resultam da atrofia das vilosidades intestinais, essas complicações podem ser: fibrose, estenose dos vasos que irrigam o intestino, necrose, ulcerações, obstrução intestinal, hemorragias ou fístulas.
  • Alguns agentes farmacológicos utilizados no tratamento contra o cancro aumentam muito a motilidade intestinal causando diarreia, isto traduz-se numa má absorção e desidratação.

Caquexia - Perda de massa muscular

Caquexia - Perda de massa muscular

A caquexia está tipicamente associada ao cancro, sabe-se que mais de 50% dos doentes com cancro desenvolvem este síndrome. A caquexia é a perda de peso excessiva por perda de massa muscular e massa gorda associada à anorexia (perda ou falta de apetite), hipermetabolismo, especialmente das proteínas e lípidos, e estado de inflamação crónica.  

Como referido, a anorexia está associada à caquexia, mas estes síndromes de perda de peso não são a mesma coisa. A anorexia é também um fenómeno comum nos doentes oncológicos, esta pode existir sem que exista caquexia.

A anorexia é um distúrbio das vias do nosso corpo que controlam a nossa ingestão de alimentos, está presente uma incapacidade do hipotálamo responder de forma eficaz aos sinais que indicam necessidade de alimentos.

Os mecanismos fisiológicos da caquexia associada ao cancro não são ainda totalmente conhecidos. No entanto, a informação existente permite agir de forma a melhorar a qualidade de vida destes doentes e a aumentar a esperança média de vida.

O músculo é constituído por proteínas. A proteólise é a destruição das proteínas. Na presença de fatores tumorais específicos, como o PIF (fator indutor da proteólise), a destruição das proteínas é estimulada e a sua produção é inibida. Estes dois pontos são os grandes responsáveis pela perda abrupta de massa muscular.

Similarmente à perda de massa muscular, também a perda de massa gorda acontece na presença de fatores tumorais específicos, como o LMF (fator metabolizador de lípidos). No entanto, neste caso a diminuição da massa gorda deve-se, essencialmente, ao aumento da degradação de triglicerídeos e não há diminuição da sua produção.

Estado de inflamação crónica na caquexia

Os doentes com caquexia neoplásica apresentam um estado de inflamação crónica. São produzidas substâncias inflamatórias chamadas citocinas que são responsáveis por este estado. A inflamação crónica piora o estado geral do doente, dificulta os tratamentos e diminui a qualidade de vida.

Como consequências deste estado inflamatório temos:

  • Fadiga – É natural que se sinta cansado e sem energia, o estado de caquexia, pelas alterações metabólicas que causa, incluindo a inflamação, é um grande consumidor de energia do organismo.
  • Alterações de sono – Alterações nos padrões hormonais e aumento de substâncias inflamatórias em circulação, provocam alterações nas fases do sono. Isto agrava ainda mais a fadiga.
  • Aumento da temperatura corporal –A febre é uma característica comum na inflamação. Este aumento na temperatura faz aumentar ainda mais o metabolismo.
  • Aumento da taxa de metabolismo basal – O metabolismo é o conjunto de todas as reações químicas que acontecem nas células, isto é, como se fosse a quantidade de trabalho do organismo. A inflamação faz aumentar essa carga de trabalho, aumentando o dispêndio de energia, contribuindo para a perda de peso.
  • Resposta hormonal ao stresse através da produção excessiva de cortisol, adrenalina e glucagon – Quando o organismo está em stresse, seja físico ou psicológico, são produzidas hormonas que num organismo saudável preparam o corpo para o perigo. Nestes casos aumentam também o metabolismo.
  • Aumento da quantidade de urina – Este aumento é resultado de um metabolismo acelerado, é necessária atenção à desidratação.

Como tratar a caquexia

A caquexia é um síndrome complexo, é necessário acompanhamento nutricional pela equipa de profissionais de saúde que o segue.

A utilização do ácido eicosapentaenoico (EPA) tem-se revelado bastante útil nos doentes com caquexia.

O EPA é um ácido gordo do grupo ómega 3. A sua principal vantagem é que apresenta elevada densidade proteico-calórica, isto é, é rico em proteínas, auxiliando na perda de massa muscular e é rico em calorias, auxiliando na perda de peso.

Este ácido gordo apresenta ainda outras vantagens como:

  • Atividade anti-inflamatória
  • Inibe a destruição de lípidos e proteínas
  • Contribui para o aumento de peso

Relativamente às doses do EPA, deve fazer a dose recomendada pelos profissionais de saúde. No entanto, as doses mais aplicadas situam-se entre 2 a 2,2 gramas por dia.

Os efeitos, geralmente, começam a ser notórios a partir das 4 a 12 semanas e com eles o doente sente que melhorou a sua qualidade de vida.

É apenas necessário ter em atenção que o EPA não deve ser utilizado em grávidas, em lactentes e em crianças até 2 anos de idade. 

Neutropenia - Cuidados na alimentação

Neutropenia - Cuidados na alimentação

A neutropenia acontece devido ao tratamento ou à doença propriamente dita e é uma descida no número de neutrófilos no sangue.

Os neutrófilos fazem parte de um grupo de 5 tipos de células leucocitárias juntamente com os eosinófilos, basófilos, monócitos e linfócitos. Estas células fazem parte do sistema imunológico.

Nos doentes com cancro, as agressões às células sãs pelos agentes da quimioterapia são responsáveis pela queda no número de neutrófilos e consequente debilidade do sistema imunitário.

Nesta altura, os doentes encontram-se extremamente suscetíveis a infeções e, por isso, é necessário que tenham cuidados quer ao nível de higiene, quer ao nível da alimentação.

As adaptações podem parecer-lhe muitas e complicadas, mas tudo será uma questão de hábito, lembre-se que será temporário, assim que recuperar da neutropenia poderá retomar a sua rotina.

 

Alimentos a evitar

  • Alimentos mal cozinhados (carne, peixe e ovos)
  • Marisco e enchidos
  • Leite ou queijos não pasteurizados
  • Frutas de casca muito fina, como a maçã, a pêra, a uva etc.
  • Frutos secos
  • Queijo em barra ou em bola
  • Bolos com creme, recheios, ovos-moles
  • Água de fontes
  • Sumos de fruta naturais
  • Ervas aromáticas, se adicionadas após a confeção do prato
  • Maionese caseira

 

Alimentos permitidos

  • Laticínios pasteurizados
  • Queijo pasteurizado embalado individualmente
  • Alimentos bem cozinhados
  • Frutos de casca grossa, como banana ou melancia
  • Arroz, massa, feijão e grão devidamente confecionados
  • Bolachas e biscoitos sem recheios e embalados
  • Sumos pasteurizados
  • Chá em saquetas e fervido
  • Molhos não caseiros
  • Sal, azeite e vinagre em doses individuais

 

Cuidados com o tratamento dos alimentos

  • O descongelamento deve ser feito no frigorífico e nunca à temperatura ambiente
  • Alimentos que já estão cozinhados não devem arrefecer à temperatura ambiente, deve coloca-los no frigorífico
  • Os vegetais e a fruta devem ser lavados da seguinte forma:

1- Passar por água corrente

2- Deixar 20 minutos em água e lixívia (1 porção de lixívia para 10 porções de água)

3- Voltar a passar por água corrente

  • Se consumir enlatados, deve lavar bem a lata antes de abrir
  • A comida, quer para congelar, quer para o frigorífico, deve ser embalada em doses individuais e bem fechadas
  • Se consumir carne picada, pique em casa, no momento da confeção
  • Nunca volte a congelar um alimento que já foi descongelado. Se descongelou e não utilizou, o alimento deve ser colocado no lixo
  • Se utilizar ervas aromáticas nos seus pratos, adicione-as, pelo menos, 5 minutos antes de terminar a confeção do prato

 

Cuidados na cozinha

  • Mantenha a cozinha sempre limpa
  • Os utensílios que utiliza para alimentos crus devem ser diferentes dos que utiliza para alimentos cozinhados
  • Todos os dias substitua os panos de cozinha e toalhas
  • Todos os dias desinfete as esponjas e esfregões da loiça
  • Todas as semanas troque as esponjas e esfregões da loiça
  • A loiça deve ser lavada na máquina ou com água quente
  • Na hora da refeição o doente deve ser o primeiro a ser servido e não deve partilhar copos e talheres, para sua própria proteção

Este texto foi revisto e atualizado em outubro de 2014‏‏.
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