Saborear a época natalícia



Saborear a época natalícia - por Teresa Gomes

Saborear a época natalícia

A quadra natalícia é um momento único de convívio e união familiar aos quais se associa uma mesa recheada de iguarias e pratos típicos.

No entanto, as características de algumas doenças oncológicas, e alguns tratamentos utilizados para as doenças oncológicas, nomeadamente a quimioterapia e a radioterapia, podem desencadear efeitos secundários que afetam a alimentação.

O que comer quando a boca está dorida ou se está nauseado?

Em primeiro lugar, fale com a equipa médica que o segue e aqui ficam algumas sugestões que poderão ser ponderadas.

Fornecemos alguns conselhos simples (apesar de simples poderão não se adaptar a todos...) que poderão tornar mais fácil a adaptação da ementa de Natal a alguns dos sintomas que o doente oncológico pode ter, como:

- a mucosite (feridas na boca que causam dor ao mastigar e engolir os alimentos);
- as alterações de paladar;
- a falta de apetite;
- as náuseas
- a diarreia;
- a obstipação (“prisão de ventre”), sem retirar o prazer de comer.

Propomos uma ementa alternativa para o dia de Consoada, que sugere adaptações dos pratos e sobremesas tradicionais para contornar ou melhorar estes sintomas.

Ementa de Consoada Alternativa

Empadão de bacalhau

Empadão de bacalhau 

Esta receita de empadão de bacalhau é uma adaptação do bacalhau de consoada, que tem como objetivo tornar o prato mais macio e fácil de mastigar, o que é importante para aqueles que têm feridas na boca ou pouca produção de saliva.
A incorporação do leite de soja ou sem lactose também o torna adequado a quem tem alterações do trânsito intestinal (diarreia, por exemplo) ou seja intolerante à lactose. As ervas aromáticas e o limão incorporados permitem melhorar o sabor, tornando-o mais agradável para quem tenha alterações do paladar.
Pode ainda adicionar-se como acompanhamento um esparregado de couve penca (ou couve portuguesa), também mais macio do que a tradicional couve cozida.

Arroz malandrinho de badejo e delícias

Arroz malandrinho de badejo e delícias

A segunda opção do menu é um arroz malandrinho de badejo e delícias em substituição do tradicional arroz de polvo. É um prato mais fácil de digerir, podendo adaptar-se a pessoas com dificuldade de mastigação (o badejo pode ser lascado e o molho torna-o mais fácil de mastigar). Sendo um peixe com um cheiro menos ativo, é adequado também a pessoas com náuseas.
Sobremesas:

Leite creme

Leite creme

Esta receita do tradicional leite creme foi adaptada para ir de encontro às necessidades das pessoas com alterações do trânsito intestinal (diarreia ou obstipação) ou que necessitem de fazer uma alimentação com poucas fibras ou pouco resíduo (por exemplo, quando o intestino está parcialmente obstruído). Substituiu-se o leite de vaca por leite de soja com aroma de baunilha, que acrescenta sabor sem fornecer lactose. O leite sem lactose é igualmente uma boa opção. É uma sobremesa rica em energia e proteínas, adequada para quem tem pouco apetite, que pode ser utilizada como uma pequena merenda a meio da manhã ou ao deitar. O aroma da canela, do limão e da baunilha auxiliam aqueles que têm alterações do paladar (falta de sabor ou sabor metálico na boca - comer com colher de plástico neste último caso).

Aletria

Aletria

Da mesma forma, pode adaptar-se a receita da aletria e conseguir os mesmos benefícios.

Rabanadas no forno

Rabanadas no forno

Os fritos são pratos incontornáveis na mesa de Natal. No entanto, têm um cheiro muito ativo, que pode ser um transtorno para quem se sente nauseado e são, como todos sabemos, pratos pouco saudáveis, embora permitidos em ocasiões especiais como é o Natal. De qualquer modo, é sempre vantajoso poder melhorar um prato pouco saudável, mantendo todo o seu sabor. A próxima opção é a das rabanadas no forno, em oposição às tradicionais rabanadas (ou fatias douradas) fritas.

Estas rabanadas têm menos calorias (porque não absorvem a gordura da fritura) e têm um aroma menos intenso. Devem ser colocadas num recipiente fechado logo que termine a confeção, para que amoleçam e se tornem mais húmidas, facilitando a mastigação. Para aqueles que ao longo dos tratamentos oncológicos ganharam alguns quilinhos a mais, são uma boa opção à receita tradicional, mais calórica. A substituição do leite de vaca por leite de soja ou sem lactose, melhora sempre a tolerância intestinal. Para quem precise de controlar a quantidade de fibra ou resíduo alimentar, o pão a utilizar deve ser o pão “branco” ou de trigo.

Bolo Rei Delicado

Bolo Rei Delicado

Para terminar, não poderia deixar de apresentar uma alternativa ao Rei das sobremesas de Natal, o Bolo Rei. De Norte a Sul do País, são inúmeras as variações da receita deste bolo, mas todas apresentam os frutos secos como ingrediente fundamental e, na maior parte das vezes, inteiros ou partidos grosseiramente, o que se torna um problema quando a boca está seca (com pouca saliva) ou com feridas. Então, a solução é o nosso Bolo Rei delicado!

Este bolo fica muito macio e pode ser acompanhado com uma chávena de chocolate quente para um lanche mais calórico (útil para aqueles que têm pouco apetite). As frutas cristalizadas foram excluídas propositadamente para melhorar a textura suave do bolo. No entanto, podem sempre ser adicionadas à receita, para todos aqueles que não tenham inconvenientes com a mastigação e deglutição. É ainda rico em fibras e, portanto, aconselhado para quem tem obstipação.

Estas receitas podem ainda ser complementadas com outras dicas que podem tornar a alimentação mais agradável no seu dia-a-dia:

Dicas para melhorar o paladar

  - Use fruta ou molhos de fruta para acompanhar pratos de carne e neutralizar o sabor ácido destes pratos;
  - Pode utilizar mel ou açúcar para quebrar a acidez de pratos de carne ou dos molhos de tomate (claro que se for diabético esta não será a melhor solução...);
  - Recorra ao uso de ervas aromáticas (ex: coentros, salsa, orégãos, louro, tomilho) para melhorar o sabor dos pratos;
  - Temperar a carne e o peixe com limão, se não tiver lesões na boca, faça uma marinada com molho de soja ou sumo de fruta (por exemplo, sumo de laranja);
  - Se sentir um gosto estranho com as “carnes vermelhas”(ex: bife), pode substitui-las por “carnes brancas” (frango, peru), ovos, peixes menos gordos, leguminosas (feijão seco, grão de bico ou lentilhas) ou laticínios (leite, iogurte, queijo fresco, requeijão);
  - Se sentir a boca com um gosto metálico, use louça e utensílios de plástico, inclusive os talheres;
  - Nos intervalos das refeições chupe rebuçados de limão ou de menta sem açúcar ou mastigue pastilha elástica de menta;
  - Mantenha a boca limpa e saudável, escovando os dentes com frequência.

Por último, não se esqueça que, durante o período de tratamentos, é fundamental manter uma alimentação variada e equilibrada: não só ajuda a suportar os efeitos secundários, como torna menos provável o aparecimento de infeções. Uma boa alimentação torna a recuperação mais fácil, aumenta o bem-estar e permite a continuidade dos tratamentos.

Não se esqueça que estas são algumas indicações gerais cuja adaptação à sua situação clínica em particular deve ser discutida com a equipa médica que o segue.

Boas Festas!

A Nutricionista: Teresa Gomes (CP: 1049N)