O que são, como surgem, que sintomas provocam e como podem ser tratadas



O que são, como surgem, que sintomas provocam e como podem ser tratadas.

Os ossos, quando considerados na sua totalidade, constituem a estrutura que sustenta o corpo humano. São constituídos por células, uma rede de tecido fibroso chamada matriz e minerais, como o cálcio, que agregam a matriz e conferem rigidez e  robustez.

Existem 2 tipos de células ósseas: os osteoblastos, que formam novo tecido ósseo, e os osteclastos responsáveis pela destruição de osso antigo. Este processo de formação de novas estruturas e destruição das mais antigas é continuo e permite que o osso mantenha a sua resistência.

As metástases ósseas

O cancro pode metastizar, ou “espalhar-se”, para quase todos os tecidos do organismo, e o osso constitui um dos locais mais frequentemente atingidos. Estas metástases ósseas, células cancerígenas que se espalharam para o ossotendo origem noutra localização, constituem assim um dos problemas mais comuns do doente com cancro.

Os principais cancros que metastizam para o osso são os cancros da mama e próstata. A título de exemplo refira-se que quando estes cancros metastizam, 2 de cada 3 casos fazem-no para o osso.

Em situações muito raras o cancro começa nos próprios ossos: são os chamados tumores primários do osso.

As metástases ósseas podem ocorrer em qualquer osso mas são encontradas mais frequentemente nos ossos próximos do centro do corpo. A coluna vertebral constitui um dos locais mais comuns de metastização óssea, seguido pelos ossos da pelve, fémur, úmero, costelas ou o crânio.

O cancro pode afectar os ossos de 2 formas distintas:

  • através da libertação de determinadas substâncias o cancro pode aumentar a actividade dos osteoclastos. Desta forma aumenta a destruição óssea sem que haja reposição de novo osso. O osso torna-se frágil e pode fracturar no decurso das actividades do dia-a-dia ou devido a um pequeno trauma. São as chamadas metástases osteolíticas.
  • o cancro pode por outro lado aumentar a actividade dos osteoblastos. Desta forma assiste-se à deposição de novo osso sem que o osso antigo tenha sido reabsorvido. Como consequência a estrutura do osso é alterada e, embora se possa tornar mais espesso, na verdade fractura com mais facilidade. São as chamadas metástases osteoblásticas.

Por vezes as metástases ósseas podem ser encontradas no decurso de realização de exames, sem que exista qualquer sintoma.

Habitualmente contudo as metástases ósseas associam-se aos seguintes sintomas:

  • Dor - A dor óssea pode ser um dos primeiros avisos de que o cancro se espalhou para os ossos. É também um dos sintomas mais frequentes.
  • Fracturas - Os ossos fragilizados pelas metástases podem fracturar com relativa facilidade. Os locais mais comuns de fratura são os ossos longos dos membros e os ossos da coluna vertebral.
  • Compressão medular - A medula espinal é constituída por nervos responsáveis pela mobilidade e sensibilidade do corpo. Quando as metástases se desenvolvem nos ossos da coluna vertebral podem causar a fractura destes ossos, que por sua vez podem comprimir a medula espinal e provocar a sua lesão. Como consequência, para além de dor na coluna vertebral, pode instalar-se diminuição da sensibilidade e da capacidade de mobilização de parte do corpo e, em situações extremas, paralisia.
  • Níveis elevados de cálcio no organismo - As metástases danificam o osso e desta forma podem conduzir à libertação de cálcio na corrente sanguínea, fenómeno conhecido como hipercalcemia. A hipercalcemia pode provocar obstipação, náuseas, perda de apetite, fadiga, sonolência e confusão.

Sintomas de metástases ósseas

O diagnóstico das metástases ósseas pode ser feito através da presença de dor ou dos outros sintomas atrás descritos. Pode também ocorrer através do recurso aos seguintes meios complementares de diagnóstico: testes laboratoriais (cálcio, fosfatase alcalina), radiografia, cintigrafia óssea, tomografia axial computorizada, ressonância magnética ou tomografia de emissão de positrões.

Em determinadas circunstâncias pode ainda ser necessário realizar uma biopsia para confirmar a metastização óssea, procedimento habitualmente realizado por médicos especialistas em radiologia de intervenção ou, em casos particulares, por cirurgiões.

Exames de diagnóstico de metástases ósseas

Quando um cancro metastiza para o osso raramente é curável mas o tratamento permite na maior parte das situações interromper o seu crescimento e, desta forma, aumentar a qualidade e o tempo de vida.

O tratamento varia de acordo com o tipo de cancro que o doente apresenta, os seus sintomas, o número e a localização dos ossos envolvidos, tratamentos previamente realizados, se ocorreu ou não fractura e o estado geral do doente.

Exemplos de tratamentos locais são a radioterapia externa, técnicas de ablação (consistem na colocação de um dispositivo no próprio tumor que emite calor, frio, sinal eléctrico ou permite a administração de um agente farmacológico) ou a cirurgia.

Podem ainda ser considerados tratamentos sistémicos que destroem as células neoplásicas qualquer que seja a sua localização. Entre estes tratamentos contam-se a quimioterapia, a hormonoterapia, os tratamentos dirigidos e a imunoterapia.

Finalmente podem ainda ser considerados tratamentos sistémicos que actuam preferencialmente nos ossos como radiofármacos, iodo radioactivo, bifosfonatos ou inibidor do RANK ligando.

Tratamento de metástases ósseas

Devido à sua aplicação extensiva destacamos os bifosfonatos e, devido ao seu carácter inovador, destacamos também o inibidor do RANK ligando denosumab.

Quando o cancro atinge os ossos os ostecolastos podem tornar-se mais reactivos o que faz com a sua actividade de destruição óssea aumente. Ora os bifosfonatos exercem a sua acção benéfica através da redução da actividade dos osteoclastos.

Os bifosfonatos permitem reduzir os danos ósseos causados pelo cancro, diminuir a dor óssea e baixar os níveis elevados de cálcio. Habitualmente são administrados por via endovenosa a cada 3 ou 4 semanas.

Os bifosfonatos mais utilizados são o ácido zoledrónico e o pamidronato e os seus efeitos laterais mais comuns são a fadiga, dor articular, diminuição excessiva dos valores de cálcio (hipocalcemia) e surgimento de lesões renais.

Um efeito pouco frequente mas sério dos bifosfonatos é a chamada osteonecrose da mandíbula. Nesta condição parte do osso da mandíbula perde o seu aporte sanguíneo o que pode levar a infecções, úlceras orais que não encerram ou problemas dentários. Mantem uma boa higiene oral e visitar regularmente o dentista ajuda a prevenir a osteonecrose da mandíbula.

O denosumab é um fármaco que impede a activação dos osteoclastos através do bloqueio de uma substância chamada RANK ligando. Vários estudos demonstraram que o denosumab prevenie o aparecimento de problemas relacionados com as metástases ósseas de forma tão ou mais eficaz que o ácido zoledrónico.

É administrado através de uma injecção subcutânea a cada 4 semanas e, ao contrário do ácido zoledrónico, pode ser utilizado em segurança em doentes com problemas renais.

MIGUEL BARBOSA
Médico especialista em Oncologia Médica.

Pós-graduado em Medicina da Dor e Cuidados Paliativos.
Membro da Sociedade Portuguesa de Oncologia, da Sociedade Portuguesa de Senologia, Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos e da Sociedade Europeia de Oncologia Médica.